A inflação não atinge todos os brasileiros com a mesma força. Para alguns, ela é muito pior do que para outros. E mesmo os índices que medem a inflação também têm influências diferentes entre eles. O IGP-M, por exemplo, tem sido maior que o IPCA. E ele serve de referência para maior parte dos contratos de aluguel.

De um lado inquilinos, de outro proprietários, e, entre os dois, muita conversa. É na negociação que cabem palavras novas, que não estão no contrato de aluguel, como “isenção” na hora do reajuste. E olha que a Luciana pediu só um índice menor do que o IGP-M, que é o padrão.

“Qual foi minha surpresa quando a minha proprietária acabou me isentando do reajuste este ano”, conta Luciana Sirqueira, supervisora de relacionamento com cliente numa imobiliária.

Isso foi em abril e, agora, Luciana acabou de se mudar para um apartamento maior, pagando um pouco mais, para mesma proprietária, e que será reajustado pelo IPCA, a inflação oficial.

“É tudo questão da gente conversar e se chegar a um bem comum, nem tanto paro meu lado nem para o lado dela. Locação é como se fosse casamento, todo mundo tem que ceder”, diz Luciana.

Ceder nem que seja por necessidade. Os efeitos da pandemia na renda dos brasileiros mudaram as negociações do aluguel.

“As partes de ponta a ponta vão encontrando esse meio do caminho, esse equilíbrio econômico do contrato que só elas no caso concreto, elas são as melhores pessoas para estipular e fazer com que essa relação perdure por basante tempo, que é o que todo mundo quer”, afirma Moira Toledo, diretora da Lello Imóveis.

Um levantamento feito pela rede de imobiliárias de São Paulo mostrou que 33% dos reajustes usaram o IPCA; em 30% dos casos, o percentual foi definido entre inquilinos e proprietários; 29% dos contratos não tiveram aumento nenhum; e apenas 8% aplicaram o IGP-M.

Desde o ano passado, o IGP-M, também conhecido como a “inflação do aluguel”, está subindo bastante. O IGP-M até recuou em setembro, mas mesmo assim, está em quase 25% no acumulado de 12 meses, mais do que o dobro do índice oficial.

Os economistas dizem que o IGP-M está mesmo longe de ser o melhor para reajustar o aluguel. Isso porque considera muito mais a variação de preços de matéria-prima e insumos da construção do que a inflação para o consumidor.

“A parte do consumidor no IGP é só 30%. Então não faz sentido reajustar aluguel ou escola com IGP-M. Tem que reajustar com inflação ao consumidor. No longo prazo, esses dois índices devem convergir um para o outro, mas deve demorar bastante”, explica Marcelo Kfoury Muinhos, professor de economia da FGV.

Em junho, Paula deixou o IGP-M de lado na hora de negociar com o inquilino. Botou na conta a situação econômica, o cuidado dele com o imóvel e usou o IPCA.

Os dois não se conhecem pessoalmente, mas ela recebeu uma mensagem agradecendo pelo reajuste justíssimo do aluguel.

“Não precisamos aumentar, poderíamos estar numa situação em que precisasse e a gente não precisava, e a gente entendeu que também não era porque era nosso direito que a gente ia sair cobrando. A gente tinha que entender o outro lado. Foi enfim uma mensagem que trouxe um sentimento agradável. De alguma maneira a gente está fazendo alguma coisa correta no meio dessa pandemia”, diz Paula Calabró, radialista e produtora de audiovisual.

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